Mapa do Site    |    Pesquisa

topo

 
ZONAS DE COINCIDÊNCIA

sobre
Osório Mateus, de teatro e outras escritas
org. Maria João Brilhante, José Camões e Helena Reis Silva, Lisboa, Quimera, em colaboração com o Centro de Estudos de Teatro, 2002

Paulo Eduardo Carvalho

2002 foi um ano merecidamente generoso para com a memória de Osório Mateus: o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa (unidade que ele ajudou a criar, em 1994) e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda publicaram finalmente, sob a direcção científica de José Camões e a colaboração de uma vasta equipa daquele Centro, As Obras de Gil Vicente, um projecto de cinco volumes, e que surge na sequência duma anterior edição electrónica, que finalmente dá os textos do nosso dramaturgo a ler, em lugar de os dar lidos, como tantas vezes o coordenador da iniciativa Cadernos Vicente (1988-1993) defendeu; e o mesmo Centro, em colaboração com a Quimera, organizou e publicou um volume, de generosas 575 páginas, que reúne uma centena de textos, na sua maior parte éditos, mas incluindo também alguns poucos inéditos, escritos por Osório Mateus, entre 1969 (data de publicação do texto sobre Jack Gelber, com que abre o volume, e não 1971, como se refere na «Nota editorial») e 1995.

Da reunião destes escritos, tão variados na sua circunstância e motivação, apetece dizer aquilo que o próprio Osório Mateus escrevia, em 1971, sobre O Aprendiz de Feiticeiro, de Carlos de Oliveira: «só aparentemente é [de teatro e outras escritas] a apresentação de soltos escritos de circunstância [...], textos diversos, unidos apenas pelo agrupar nas páginas de um mesmo livro, por uma comum e anterior autoria. [de teatro e outras escritas] surge-nos antes como a nova ficção de uma espantada viagem à floresta de textos velhos, semeados num tempo que se percorreu» (p. 280). O trabalho «discreto» dos editores optou por distribuir os textos por «artigos», «recensões, notas e comentários», «críticas a espectáculos» e «entrevistas, inquéritos e mesas redondas», respeitando em cada secção a sequência cronológica da sua publicação, e dotando-os de informação adequada sobre os respectivos espaços e datas de publicação (bem como sobre a obra recenseada ou o espectáculo criticado, quando é o caso). São «modos de entrar no livro», embora o leitor possa também ler cada um desses «marcos de viagem» na perspectiva de quem quer acompanhar a «aventura de uma escrita» ou a evolução de um «ofício de leitura» tão modelarmente praticado pelo autor.

O título, justíssimo, deste volume – de teatro e outras escritas – recupera, de forma adequadamente subtil, o título de uma outra recolha publicada ainda em vida do autor, Escrita de teatro (Bertrand, 1977, e de onde são extraídos alguns dos textos agora aqui incluídos), para, deste modo, e num só gesto, explicitar a centralidade do teatro no trabalho de investigação e de reflexão de Osório Mateus, e abrir espaço a outras atenções. Em «outras escritas» cabem os textos sobre a poesia da Presença, bem como sobre José Gomes Ferreira, Fernando Guimarães e Gastão Cruz, mas também as reflexões, as mais das vezes motivadas pela tarefa recenseadora, sobre a «nova crítica», a sociologia da literatura, ou a semiótica teatral.

Mas entre artigos, recensões, notas, comentários e críticas a espectáculos, é, naturalmente, sobre teatro o maior número de escritos de Osório Mateus. Claro que o lugar de destaque vai para Gil Vicente (serão mais de quinze os textos que lhe são exclusivamente dedicados, e o número amplia-se consideravelmente se lhe acrescentarmos as recensões de outros trabalhos que dele se ocupam), mas são muitos mais os dramaturgos portugueses que mereceram a sua atenção e que encontramos analisados ou referidos nestas páginas: Anrique da Mota, Diogo Paiva de Andrada, Baltesar Dias, Simão Machado, Chiado, Camões, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Garrett, Camilo, Mário de Sá-Carneiro, Régio, Branquinho da Fonseca, Manuel Teixeira Gomes, João Osório de Castro, Luís de Sttau Monteiro, David Mourão-Ferreira, Fernando Luso Soares, José Sasportes, Romeu Correia, Virgílio Martinho, Jaime Gralheiro, Carlos Wallenstein, Vicente Sanches, Jorge de Sena, Teresa Rita Lopes... E ainda os brasileiros Augusto Boal, Dias Gomes e Francisco Pereira da Silva; e os estrangeiros Lope de Vega, Bertolt Brecht, Samuel Beckett, Jack Gelber, e Peter Shaffer. Como diversos são os historiadores, investigadores, ou críticos recenseados, entre outros: José Oliveira Barata, Teresa Rita Lopes, António Tabucchi, Aníbal Pinto Castro, Maria Leonor Machado de Sousa, Luiz Francisco Rebello, Alberto Figueira Gomes, Duarte Ivo Cruz, Óscar Lopes, Mário Martins, Adrien Roig, Stephen Reckert, Paul Teyssier, Maria Leonor Carvalhão Buescu, Maria Manuela Gouveia Delille, Cleonice Berardinelli, Roland Barthes.

Não é na brevidade recenseadora que será possível dar conta das muitas instâncias, neste volume, em que se plasma a atitude interpeladora e exigente de Osório Mateus, a inquieta consciência do muito que havia a fazer para vencer a «crassa ignorância teatral a que muitos e variados factores nos obrigaram» (49): «No espaço cultural português [...] há um trabalho enorme (ingrato e prévio) que tem de ser feito e há-de mobilizar tudo o que por aí anda com capacidade e vontade (boas). Essa tarefa [...] está atrasada e gira em torno de problemas a não depreciar, como sejam, fixação de textos, levantamento de edições críticas, e até determinação de fontes, de datas, de autorias. Problemas de ordem histórico-literária cujo deslindar terá que ser anterior a tudo o resto» (483). A já referida edição das Obras de Gil Vicente aí está como demonstração de um desígnio e de um trajecto. Mas também poderíamos referir, no âmbito do Centro de Estudos de Teatro, a existência, cada vez mais ampliada, da CETBase, uma base de dados sobre teatro em Portugal que dá, hoje, resposta à ficção projectada por Osório Mateus, num texto datado de 1976, em que ele imaginava a existência em Portugal de um informatizado «centro de informações teatrais» que permitisse, naquele caso, «fazer o inventário exaustivo da presença americana no teatro português destes últimos cinquenta anos» (p. 52), garantia para se saber «o onde e o quando; faltavam o como e o porquê» (Ibidem).

Como central a toda a sua actividade e reflexão merece, contudo, especial destaque a consciência de que «por letras o teatro não passa todo» (210). Desta atitude decorreu o seu combate contra a «lenda tenaz» de que o teatro é um «género literário» (105), contra a natureza «normalizante, totalizante e indiferente» de um «aparelho conceptual que faz do teatro um subgénero das práticas da escrita» (215) e «censura/esquece o tempo e o modo de textos que, antes da tipografia, foram presentes numa cena e em corpos» (153), e a defesa de um modo de interrogação do «funcionamento do texto dramático, não já no interior de uma universalidade histórica de textos, mas na sua relação prévia com a prática teatral, considerada – essa sim – no interior do conjunto das práticas simbólicas» (109).

Dois dos textos mais reveladores desta atitude epistemológica, e da necessidade sentida pelo autor de, entre nós, a repetir e desenvolver, são precisamente «Especificidade do texto dramático» (originalmente publicado em 1977, em Escrita de teatro) e «Literatura e teatro» (originalmente publicado na revista Vértice, em 1989, e, no Verão do ano seguinte, parcialmente reeditado no número 11 da revista Ler, sob o título “Artes diferentes”, facto que os editores se esquecem de referir e que ganha tão maior relevância quanto, até à publicação recente de uma entrevista com Luís Miguel Cintra, na edição do Inverno de 2002, aquele era o único texto sobre teatro alguma vez publicado em todos os quinze anos que aquela revista já leva de existência). A este dois textos seria ainda possível associar o mais breve «What’s in a name?», em torno dos múltiplos e equívocos sentidos da palavra «teatro».

Se muito do trabalho de Osório Mateus em torno de Gil Vicente se prendia com a ambição de um justo «restauro imaginário do teatro» (264), tal resultava da convicção, «cientificamente» traduzida, de que «Teatro e literatura são artes diferentes. Em toda e qualquer análise, hão-de ser tratados como práticas específicas e autónomas. São objectos distintos do saber e implicam métodos de conhecimento diferentes» (212); «Corpos numa arte e letras na outra» (213). Recuperando uma fugaz expressão utilizada pelo autor em “Teatro e literatura”, a sua aventura – e aquela que ele legou a muitos que vêm prolongando idêntica ambição – teve lugar e projectou-se sempre nas «zonas de coincidência» entre as práticas do teatro e da literatura (217).

Há em todo o labor de Osório Mateus – e aqui reside também grande parte da sua mais relevante «historicidade», que este volume nos permite agora recuperar e interrogar – uma coincidência com os esforços que, contemporaneamente, algum do teatro português (infelizmente mais a prática cénica do que a criação dramática) vinha desenvolvendo, numa determinação comum de «recuperar» para as artes do espectáculo uma nobreza e mérito mais naturalmente reconhecidos às letras e às artes plásticas. Tal empenho, no que diz respeito a Osório Mateus, encontra-se reflectido não só na grelha crítica utilizada para criticar alguns dos espectáculos aqui recenseados – e como seria bom que fossem mais numerosos esses textos –, mas também, por exemplo, na lucidez com que, na entrevista aos fundadores da companhia Os Cómicos, em 1974, ele afirma, um pouco ao arrepio do muito que então se fazia na cena portuguesa, que “mais do que fazer teatro sobre política interessa-me fazer politicamente teatro” (519), acrescentando que «não é exactamente a escolha do repertório que é o critério fundamental do grupo [...] o que interessa é um certo modo de trabalhar o repertório» (520).

Não sei sequer se será justo referir minúsculas deficiências no trabalho de edição, como aquelas já identificadas ou o caso, menor, do desacerto entre «Recensões, notas e comentários», com que abre o segundo bloco de textos, na p. 277, e a indicação de «Recensões e comentários», no índice. Interrogo-me, contudo, se não teria valido a pena recuperar para esta edição, que se abre e oferece a um público mais vasto e alargado, a informação sobre a obra e a actividade no teatro de Osório Mateus incluída em Letras, Sinais (Lisboa, Cosmos, 1999), nas suas pp. 27-36, ou ainda indicar/listar quais os «ensaios de âmbito académico e inéditos ou textos de circulação mais restrita» (p. 8) que ficaram de fora desta recolha. Nenhuma destas observações prejudica o aturado trabalho «arqueológico» de recuperação, identificação e organização deste volume, completado por um útil e revelador índice de «Pessoas referidas», doravante indispensável para todos aqueles que, fundamente, se interessam tanto pela escrita e pelo teatro como pela escrita do teatro.