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Sinais de cena, n.º 14

[mais detalhes em: http://www.apcteatro.org/output/index.asp?o=7&ol=13 ]


Do entusiasmo republicano ao Inverno do nosso descontentamento

Maria Helena Serôdio

Tão alegres que viemos e tão tristes que tornamos quando a vida que nos
escapa é a vida que sonhamos. Quixote

sinais_de_cena_14aEstas foram as palavras doridas – das poucas que foram ditas sem música - que ouvimos na esplêndida recriação que O bando, dirigido por João Brites, fez da ópera bufa de António José da Silva, o Judeu: A vida do grande D. Quixote de la Mancha e do gordo Sancho Pança. Foi no Teatro da Trindade, no mês de Maio, que Quixote surgia como resposta ao desafio da sua nova Directora – Cucha Carvalheiro – para que a companhia trabalhasse um texto do cânone dramático português. A decisão de João Brites – junto dos que com ele partilharam a concepção do espectáculo: Jorge Salgueiro (na música), Teresa Lima (na dramaturgia), Rui Francisco (na cenografia) e Maria Matteucci (nos figurinos) – foi a de “desconcertar” três travejamentos importantes da intriga: género e idade das personagens principais, por um lado, e a forma de representação, pelo outro. Assim, o protagonismo passou a ser o das mulheres – Dulcineia e Teresa Pança – , surgindo a “heroína” como uma idosa que partia em busca da aventura e do sonho acompanhada pela sua criada, enquanto para a recriação humana dos “bonifrates” o encenador colocava em cena os bailarinos/marionetas (com movimentação e gestualidade ostensivas e fazendo playback), enquanto em cima do cubo central do cenário deixava os cantores Bruno Huca e Sara Belo fazer das suas (belíssimas) vozes os fios que davam vida aos bailarinos.

O espectáculo oferecia-se, deste modo, não apenas como uma invulgar e imaginosa redefinição de um clássico (ele próprio glosando a paródia que o texto cervantino fazia – de modo humano, demasiado humano – aos romances de cavalaria), mas também partilhando uma visão benevolente e festiva: a alegria das figuras magnificamente recriadas em cena, os figurinos brancos rendados, as canções alegres, a curiosa colagem de músicas que misturavam – em frenesi pós-moderno – momentos operáticos com canções “pimba”, sons de equipamento hospitalar, publicidade televisiva, toques de telemóveis, músicas de jogos de computador, etc. Tudo a compor, como vem no folheto do espectáculo, “melodias que coxeiam e uma ânsia desvairada” para desvendar Dulcineia “nesta ópera desdentada”.

As palavras em epígrafe – retiradas deste espectáculo - são as que recordo agora, no rescaldo de um ano que se iniciara com a promessa de comemorar os 100 anos da implantação da República em Portugal em jeito de memória inspiradora, mas que termina, entretanto, em coda bem sombria: no plano social, económico, cultural e ético.

Mas se a tristeza avança de forma tão desoladora, não podemos ignorar quanto a arte – como a de António José da Silva e de tantos outros criadores – tem sido o suporte humano para o horizonte de esperança ou de reconciliação temporária com os limites que a vida tristemente nos vai fixando. Recordo, por isso, com saudade os que a morte nos roubou, mas cuja memória continua a habitar-nos, como é próprio do teatro no seu maravilhoso processo de “assombração”: Paulo Eduardo Carvalho (o brilhante professor, investigador, crítico e tradutor de teatro, que nos ajudou a arquitectar esta revista e nos iluminava diariamente com a sua fina inteligência e amorosa amizade), João Paulo Seara Cardoso (o extraordinário criador do Teatro das Marionetas do Porto, que foi e é o seu mais elaborado sortilégio artístico e que tivemos a alegria de entrevistar para o n.º 4 da Sinais de cena, de Dezembro de 2004), António Feio (que nos deixa a memória das suas admiráveis criações cénicas e televisivas, bem como a comovente e lúcida despedida no livro Aproveitem a vida), Jaime Salazar Sampaio (o autor que Sebastiana Fadda incansavelmente radiografou e de quem nos dá aqui mais uma visitação ao seu universo dramático na secção “Estudos aplicados”), Mariana Rey Monteiro (a actriz que marcou uma geração de grandes artistas de cena), o crítico Mário Sério (que, entre nós, chamou cedo a atenção para a obra de Brecht), a actriz Maria Dulce (que até muito recentemente pudemos – felizmente – ver em séries televisivas), a figurinista e cenógrafa Vera Castro (cujo valor criativo fica registado no belo livro recém-editado pela Athena, O papel da segunda pele) e o encenador José Blanco Gil (sempre tenaz na sua resistência solitária).

Também o “mágico” da iluminação de cena em Portugal que foi Orlando Worm nos deixou neste ano, pelo que é com redobrada emoção que registamos aqui “Na primeira pessoa” a longa entrevista que deu a Ana Bigotte Vieira, revelando um excepcional saber oficinal e uma sedutora maneira de contar histórias da vida e da arte.

E, ainda, como esquecer José Saramago (que, nacional e internacionalmente, dignificou a língua e a cultura portuguesa), ou João Aguiar, autor de uma elegância discreta, na escrita como na vida?

Ora, nesta atmosfera do Inverno sombrio do nosso descontentamento, encurtar os já parcos apoios que o teatro recebe – de acordo com o que é hoje a política do Ministério da Cultura – é empobrecer esse horizonte de resgate da vida que a arte permite e celebra, ameaçando a continuação de uma criatividade que é património imaterial e respiração estética imprescindível em qualquer sociedade: e desejavelmente também na sociedade portuguesa.

No que diz respeito à APCT (e ao Centro de Estudos de Teatro, nosso parceiro indispensável na atenção ao teatro e nesta aventura que é a Sinais de cena), continuamos atentos à actividade teatral e disso damos conta na secção “Passos em volta”, revelando algumas das mais diversas combinatórias artísticas que nos ofereceram quatro dos enquadramentos festivos de Norte a Sul do país: os Festivais Gil Vicente em Guimarães, o CITEMOR em Montemor-o-Velho, o Alkantara em Lisboa e a Escrita na Paisagem, em Évora. No caso de Guimarães, é de saudar ainda a iniciativa de um Seminário para Novos Críticos que permitiu dinamizar naquele contexto a reflexão conjunta e o exercício analítico de jovens críticos e estudiosos, cujas opiniões aqui registamos com muito interesse. De Lisboa e do Porto chegam-nos ainda notícias do regresso dos “clássicos” ao palco: Édipo, de Sófocles (em versão de Jorge Silva Melo), no Teatro Nacional D. Maria II, A gaivota, de Tchekov, no Teatro Nacional S. João, e O senhor Puntila e o seu criado Matti, de Brecht, no Teatro Aberto, pela mão de Vera San Payo de Lemos e de João Lourenço.

Nessa fixação do que se vai fazendo em cena, pudemos contar, neste número da revista, com a preciosa colaboração do fotógrafo Jorge Gonçalves que aqui nos oferece um testemunho notável da Nova Dança portuguesa, guiando-nos ainda por um roteiro de fina sensibilidade e obstinado profissionalismo quer na selecção de fotografias que fez, quer nas palavras emotivas com que abre este “Portefólio”, inteiramente seu.

E de uma outra forma de registar o teatro nos fala aqui, na secção “Em rede”, João Costa Dias, jornalista da RDP África, que criou, e continua a dinamizar com indefectível entusiasmo, o seu singular programa “Atrás da máscara” trazendo notícias e comentários sobre o teatro da lusofonia e assim ajudando – e bem – a “unir povos”.

Na secção “Notícias de fora” Rui Pina Coelho dá-nos uma visão breve de dois festivais – na Arménia e no Brasil -, e a investigadora brasileira Elisabeth R. Azevedo assina um importante estudo sobre a dramaturgia de Jorge Andrade, dando conta também da sua encenação em Portugal pela Companhia Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro.

Do teatro que se faz e estuda em Portugal fala-nos ainda o encenador José Caldas ao sinalizar – na secção “Estudos aplicados” – o teatro para a infância e juventude que se vai fazendo entre nós, enquanto na secção “Leituras” nos surgem notícias de livros recentemente publicados: Fernando Claudino faz a recensão de Limiar, a peça que João Silva – infatigável encenador do Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos – criou com os “seus” actores e que nos surge como eloquente testemunho do poder da arte contra preconceitos sociais e estigmas interiorizados; Ana Campos analisa com pertinência uma nova tradução de peças de Tennessee Williams interrogando o seu valor em confronto com versões anteriores em português; Rui Pina Coelho analisa o estudo de Eugénia Vasques sobre o “difícil processo do conceito de encenação no teatro (1837-1928) ” em Portugal; e António Braz Teixeira traz-nos uma análise brilhante e circunstanciada do estudo mais recente e completo de Luiz Francisco Rebello sobre a dramaturgia portuguesa de 1820 a 1926, em diálogo com o que tem sido o longo e inquieto labor deste destacado historiador do teatro em Portugal.

E esse arco centenário, que Rebello interpela, desloca-se ligeiramente – na tábua cronológica – a propósito das secções com que abre e fecha este número da revista: o “Dossiê temático” e o “Arquivo solto”. Ambas são, de facto, dedicadas a recordar e a interrogar as razões e as consequências teatrais da implantação da República em Portugal, no ano em que, como já referido, se celebra o centenário desse cometimento político e cultural. Se no primeiro caso se analisa a legislação, o teatro de revista, o cinema e a mulher no teatro que a República favoreceu, implicando assim uma avaliação geral do seu impacto nas artes do palco e do ecrã, no “Arquivo solto” o trabalho foi sobretudo o de coligir textos fundamentais sobre o teatro que o ethos republicano inspirou e que surgem na escrita de Ernesto da Silva, Manuel Laranjeira, Coelho de Carvalho, Bento Faria e Joaquim Madureira (o temível crítico Braz Burity), não faltando ainda um excerto significativo do “Preâmbulo” dos estatutos do Teatro Livre fundado em 1902 – que abriria novos horizontes à arte dramática portuguesa – e um amplo excerto do importante “Preâmbulo” do decreto de 22 de Maio de 1911.

É muito nossa esta obstinação em prosseguir na Sinais de cena com o trabalho e a reflexão em torno do teatro em Portugal (e no mundo), mesmo quando a atenção a essa realidade não é a opção política hoje dominante, nem o campo electivo dos media em geral. Mas a verdade é que nessa dedicação somos também devedores da ajuda generosa e infatigável de muitos outros que de formas diversas nos acompanham nesse caminhar: os que trabalham nas instituições a que continuamente recorremos para a cedência de imagens ou recolha de informações várias, como é o caso do Arquivo Fotográfico (do Arquivo Municipal de Lisboa), dos serviços – de imprensa ou de arquivo – de teatros como o D. Maria II ou o São João, ou do Museu Nacional de Teatro. E contamos ainda – que sorte a nossa! – com os profissionais ligados à prática artística que prodigamente nos cedem o seu tempo, as suas palavras, o seu entusiasmo e, assim, nos contaminam com essa paixão indeclinável. Um último agradecimento vai ainda para o Teatro Nacional D. Maria II que generosamente aceitou publicitar aqui a sua programação (uma vez mais) e ao Instituto Camões que, reduzindo embora o seu compromisso com a publicação, mantém ainda vivo um apoio tão importante para nós.

Neste deve-e-haver entre esforços, dedicações, contentamentos e mágoas, resta-nos a esperança de que as palavras de Jacques Rancière possam ser um programa a cumprir também entre nós: o de se poder ainda “redesenhar o mapa do possível”1.

1 Jacques Rancière, Moments politiques: Interventions 1977-2009, Paris, La Fabrique Éditions, 2009, p. 15.